{"id":5332,"date":"2026-11-08T15:08:54","date_gmt":"2026-11-08T15:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/?p=5332"},"modified":"2026-11-08T15:08:54","modified_gmt":"2026-11-08T15:08:54","slug":"eliana-alves-cruz-questiona-ausencia-de-autoras-negras-no-jabuti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/?p=5332","title":{"rendered":"Eliana Alves Cruz questiona aus\u00eancia de autoras negras no Jabuti"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz queria ser escritora desde os 11 anos, mas levou tempo at\u00e9 acreditar que poderia transformar a voca\u00e7\u00e3o em profiss\u00e3o.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1708022&amp;o=node\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1708022&amp;o=node\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com a literatura foi alimentada dentro de casa, pelo pai e pelas av\u00f3s, que gostavam de contar hist\u00f3rias. Ao longo dos anos, Eliana encontrou no jornalismo uma forma de exercer a escrita e, ao mesmo tempo, garantir o sustento.<\/p>\n<p>Foi ap\u00f3s adoecer, em 2009 e 2010, em decorr\u00eancia de uma rotina exaustiva de trabalho como jornalista, que ela decidiu se dedicar \u00e0s pesquisas que dariam origem ao seu primeiro livro de sucesso, <em>\u00c1gua de Barrela<\/em>. A obra conta a saga de sua fam\u00edlia, descendente de africanos escravizados trazidos para o Brasil.<\/p>\n<p>Com o livro, venceu a primeira edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Oliveira Silveira, promovido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, em 2015. A conquista foi o incentivo de que precisava para se dedicar \u00e0 literatura. Desde ent\u00e3o, outros livros e premia\u00e7\u00f5es consolidaram sua trajet\u00f3ria e refor\u00e7aram a decis\u00e3o de seguir o caminho da escrita.<\/p>\n<p>Em 2022, conquistou seu primeiro Jabuti, na categoria Contos, com o livro <em>A vestida<\/em>. Em 2026, voltou a receber a premia\u00e7\u00e3o com Meridiana, que narra a trajet\u00f3ria de uma fam\u00edlia negra que vive em uma favela e busca ascender socialmente.<\/p>\n<p>Para Eliana, o fato de ter sido a primeira mulher negra a vencer o Jabuti na categoria Romance deveria causar estranheza n\u00e3o por sua condi\u00e7\u00e3o, mas por isso ter acontecido somente na 68\u00aa edi\u00e7\u00e3o da premia\u00e7\u00e3o. Antes dela, escritoras negras como Carolina Maria de Jesus, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e Ana Maria Gon\u00e7alves j\u00e1 poderiam ter recebido o reconhecimento.<\/p>\n<p>Com Meridiana, Eliana tamb\u00e9m recebeu o Pr\u00eamio Guimar\u00e3es Rosa, da Academia Brasileira de Letras, em 2025, na categoria Fic\u00e7\u00e3o. No pr\u00f3ximo dia 17 de novembro, a escritora tomar\u00e1 posse como membro da Academia Carioca de Letras.<\/p>\n<p>O racismo e a escravid\u00e3o s\u00e3o temas recorrentes na obra da autora. Com o livro <em>O crime do Cais do Valongo<\/em>, ela percebeu que come\u00e7ava a desenvolver um projeto liter\u00e1rio dedicado a investigar a vida negra no Brasil.<\/p>\n<p>Na interse\u00e7\u00e3o entre jornalismo e literatura, Eliana tamb\u00e9m apresentou o programa <em>Trilha de Letras<\/em>, na TV Brasil, e espera que a produ\u00e7\u00e3o volte \u00e0 programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Confira trechos da entrevista de Eliana Alves Cruz \u00e0 Ag\u00eancia Brasil:<\/h2>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Como despertou em voc\u00ea a vontade de ser escritora?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013 <\/strong>Eu acho que a vida inteira quis ser escritora. Tenho um di\u00e1rio de quando eu tinha 11 anos e escrevi l\u00e1: \u201cGostaria de ser escritora\u201d. S\u00f3 que a vida vai se impondo. Fiz Comunica\u00e7\u00e3o, Jornalismo, e fui trabalhar, porque existem aquelas cren\u00e7as: \u201cNingu\u00e9m vive de escrita no Brasil. \u00c9 muito dif\u00edcil. Vai publicar onde?\u201d. A\u00ed fui trabalhar com esporte, fui assessora de comunica\u00e7\u00e3o muitos anos na Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos Aqu\u00e1ticos, e \u00e9 um trabalho muito absorvente. A gente trabalha direto nos fins de semana. Eu trabalhava 7 por 0. Foram 20 e tantos anos da minha vida trabalhando 7 por 0.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> N\u00e3o era nem 6 por 1.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> N\u00e3o me lembro de um fim de semana em que n\u00e3o tivesse que trabalhar. Um neg\u00f3cio de louco. Quando olho para tr\u00e1s, digo: \u201cComo eu trabalhei! O que \u00e9 isso?\u201d. \u00c9 muito insano, adoecedor mesmo. Em 2009 e 2010, adoeci com o que hoje a gente sabe que \u00e9 <em>burnout<\/em>. Nesse per\u00edodo, falei: \u201cAcho que vou come\u00e7ar a fazer o que sempre quis\u201d, e passei a pesquisar para escrever <em>\u00c1gua de Barrela<\/em>.<\/p>\n<p>Nessa empreitada, passei quase seis anos escrevendo, cinco anos e meio, por a\u00ed. Aquilo foi minha sess\u00e3o de terapia, minha cura, meu hobby: escrever o livro, pesquisar, entrevistar meus parentes. Quando vi, estava escrevendo o livro. Terminei em 2015 e fui procurar uma editora. \u00d3bvio que n\u00e3o achei, ningu\u00e9m nem olhou para mim. A\u00ed apareceu o concurso da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares para romance. Inscrevi o livro e ganhei. A partir dali, pronto, n\u00e3o parei mais de escrever.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Logo na primeira edi\u00e7\u00e3o desse concurso voc\u00ea j\u00e1 ganhou o pr\u00eamio.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Ganhei o concurso nacional. Eram cinco premiados. Fiquei em primeiro lugar, e aquilo me deu todo o incentivo de que precisava. Pensei: \u201cAcho que \u00e9 isso aqui\u201d. E da\u00ed fui em frente.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> <em>\u00c1gua de Barrela<\/em> foi o ponto de partida. Como foi pesquisar a hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia, dos seus parentes, desde o s\u00e9culo XIX, quando vieram da \u00c1frica? Como surgiu a escolha do tema e como foi descobrir o que encontrou nessa pesquisa?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Eu sempre quis escrever. Li algumas sagas ao longo da vida e via que, na minha casa, havia algumas sagas retratadas. Meu pai sempre gostou de contar muitas hist\u00f3rias, assim como minhas av\u00f3s. Eu olhava e dizia: \u201cNossa, acho que tenho uma hist\u00f3ria muito poderosa aqui\u201d.<\/p>\n<p>Fui colecionando essas hist\u00f3rias orais ao longo do tempo. Tenho uma madrinha que \u00e9 muito acumuladora. Minha madrinha maravilhosa. Gra\u00e7as a Deus ela \u00e9 acumuladora (disse, sorrindo), porque foi guardando documentos e fotos. Quando percebeu que eu realmente me interessava, come\u00e7ou a me dar algumas coisas. Deu-me a foto da minha bisav\u00f3 novinha, que est\u00e1 no livro. Foi me entregando documentos at\u00e9 o dia em que apareceu com uma carta, que tamb\u00e9m est\u00e1 no livro. Era uma carta de uma descendente da fam\u00edlia Tosta.<\/p>\n<p>Juntando isso a um t\u00edtulo de eleitor em que aparecia o sobrenome do meu trisav\u00f4, Ad\u00f4nis Tosta, olhei e falei: \u201cPronto, \u00e9 isso aqui. Eles escravizaram a gente\u201d.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, comecei a pesquisar a fam\u00edlia deles, a fam\u00edlia Tosta. No Rec\u00f4ncavo da Bahia, era uma fam\u00edlia muito poderosa, na regi\u00e3o de Cachoeira e Santo Amaro. Juntos, eles tinham, segundo os historiadores, quase 3 mil pessoas escravizadas. Essas pessoas se relacionavam entre si nas v\u00e1rias fazendas.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> E, a partir da\u00ed, voc\u00ea continuou investigando e pesquisando?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Fui ao Arquivo Nacional, ao arquivo da cidade de Cachoeira e ao de Salvador. Pesquisei os invent\u00e1rios deles e fui juntando essas pe\u00e7as.<\/p>\n<p>A essa pesquisa se somou uma conversa que fui tendo com minha tia-av\u00f3, que tem diagn\u00f3stico de esquizofrenia h\u00e1 muitos anos. Ela tem 105 anos, completados neste ano. Na \u00e9poca, tinha menos idade, e a gente conversava. Fui falar com ela sobre suas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que existem todas as quest\u00f5es relacionadas ao adoecimento mental, mas comecei a confrontar o que ela me contava com a pesquisa e percebi que havia um fundo de verdade enorme. Ela dava informa\u00e7\u00f5es muito precisas. Fui consultar professores da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo. Um deles, Walter Fraga Filho, me disse: \u201cOlha, n\u00e3o duvide dela. Se ela estiver inventando alguma coisa, est\u00e1 inventando baseada no que viveu\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> A viv\u00eancia da sua tia foi importante para a pesquisa.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Aquilo me deu uma li\u00e7\u00e3o muito grande: todas as pessoas t\u00eam hist\u00f3rias para contar. Ela tinha um material preciso. Comecei a enxerg\u00e1-la como uma preciosidade, algu\u00e9m que, como um f\u00f3ssil que se encontra, viveu uma realidade que ningu\u00e9m mais viveu. Absolutamente incr\u00edvel. Comecei a colecionar as hist\u00f3rias dela, e assim nasceu o livro <em>\u00c1gua de Barrela<\/em>.<\/p>\n<p>Escrevi sinceramente sem muitas esperan\u00e7as de que fosse publicado por uma grande editora. Entrava nas livrarias, olhava o mercado editorial e dizia: \u201cN\u00e3o existe uma narrativa assim, n\u00e3o existe uma hist\u00f3ria assim\u201d. Mas eu queria muito que meus filhos tivessem essa hist\u00f3ria nas m\u00e3os. Acho que seria outra pessoa se n\u00e3o tivesse conhecimento de tudo aquilo. Queria fazer isso para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> A oralidade \u00e9 muito poderosa.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Demais. \u00c9 impressionante.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Voc\u00ea fez pesquisas para esse livro e para outros, como<em> O crime do Cais do Valongo<\/em>. Acredita que isso aproximou a jornalista da escritora?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Sim, claro. Principalmente na hora de duvidar, porque o jornalista foi feito para duvidar. Ele precisa de dados e documentos. Comecei a olhar e pensar: \u201cO que n\u00e3o me contaram aqui? O que est\u00e3o escondendo de mim?\u201d.<\/p>\n<p>Walter Benjamin, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o, tem uma frase: \u201cEscovar a hist\u00f3ria a contrapelo\u201d. O que est\u00e1 escondido debaixo dessa pelagem que se apresenta para n\u00f3s? Comecei a investigar, a fazer uma esp\u00e9cie de reportagem investigativa sobre a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Eu tinha outro relato dentro da minha casa. A hist\u00f3ria oficial deslegitima muito as pessoas negras, o que elas contam e o quanto suas viv\u00eancias s\u00e3o relevantes. E eu via ali uma coisa sensacional: uma comunidade que sobreviveu a muita coisa e preservou, principalmente, um planejamento de futuro muito sofisticado, com os recursos que possu\u00eda e diante do descr\u00e9dito que recebia da sociedade de modo geral.<\/p>\n<p>Sim, acho que a jornalista encontrou a pesquisadora adormecida, e isso resultou nesses livros.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> As pesquisas levaram voc\u00ea a v\u00e1rios lugares.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> \u00c1gua de Barrela se passa em Salvador e no Rec\u00f4ncavo. Conhe\u00e7o Salvador, minha fam\u00edlia \u00e9 de l\u00e1 e vou \u00e0 cidade desde a barriga da minha m\u00e3e, mas o livro me fez conhecer o lugar de outra maneira. Passei a ter um mapa da cidade e da sociedade baiana completamente novo. Quando passo pelas ruas de Salvador, consigo saber o que aconteceu ali. Nessa rua aqui aconteceu isso, isso e isso. Foi fundamental.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Em que medida essas refer\u00eancias abriram caminhos para outra obra?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013 <\/strong>Isso me trouxe um material que nem usei no livro, muita coisa da hist\u00f3ria do Brasil mesmo. Na pesquisa sobre os escravocratas do Rec\u00f4ncavo, de vez em quando me deparava com a palavra Valongo. Eles estavam aqui comprando gente, negociando. Apareciam nos jornais da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Isso me abriu os olhos para outras realidades naquele contexto da escravid\u00e3o, o que me levou a escrever O crime do Cais do Valongo.<\/p>\n<p>Enquanto escrevia \u00c1gua de Barrela, aconteciam muitas obras aqui no Rio. A cidade estava um canteiro de obras por causa dos megaeventos daquela \u00e9poca. Em escava\u00e7\u00f5es para as obras, foram descobertas ru\u00ednas do Cais do Valongo, lugar de chegada ao Brasil de muitas pessoas escravizadas.<\/p>\n<p>A\u00ed apareceram as pesquisas sobre o Valongo, naquela \u00e1rea da zona portu\u00e1ria do Rio. Fiquei fascinada, achei aquilo sensacional. Estava escrevendo sobre a escravid\u00e3o e, de repente, apareceu o Valongo. Fui ao Departamento de Arqueologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) para saber como tinham feito as descobertas. Fui nesse grau de pesquisa.<\/p>\n<p>Era muito material que n\u00e3o cabia em \u00c1gua de Barrela. Assim que terminei o livro e passei no concurso, j\u00e1 me sentei para escrever outro,<em> O crime do Cais do Valongo<\/em>. N\u00e3o queria ficar ref\u00e9m do primeiro, que come\u00e7ou a fazer certo sucesso pelo ineditismo de apresentar uma saga de uma fam\u00edlia negra daquela forma.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, havia Um defeito de cor, de Ana Maria Gon\u00e7alves. Mas Um defeito de cor \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o baseada nas figuras hist\u00f3ricas de Luiz Gama e Lu\u00edza Mahin. \u00c9 outra abordagem. O meu \u00e9 um relato familiar.<\/p>\n<p>O livro come\u00e7ou a fazer certo sucesso nesse sentido, e pensei: se n\u00e3o escrever outra coisa, vou ficar presa a esse livro. Ent\u00e3o comecei a escrever O crime do Cais do Valongo, que foi menos \u00e1rduo em termos de pesquisa, porque j\u00e1 tinha muitas refer\u00eancias. Sabia onde procurar e como procurar. Escrevi o livro em um ano.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013 <\/strong>Pela quantidade de pesquisas que voc\u00ea j\u00e1 fez, daria para escrever outro livro com o material encontrado?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013 <\/strong>Tanto que ampliei o projeto agora. O crime do Cais do Valongo nasceu pela editora Mal\u00ea, mas reeditei neste ano pela editora Record. Ele ser\u00e1 o primeiro de uma cole\u00e7\u00e3o que batizei de Crimes Coloniais. Vou escrever outros livros. O segundo j\u00e1 est\u00e1 pronto e ser\u00e1 lan\u00e7ado em janeiro.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Voc\u00ea aborda muito as quest\u00f5es do racismo e da escravid\u00e3o. Esses temas marcam sua obra. Isso tamb\u00e9m tem a ver com a vontade de deixar esse registro para o futuro, questionar a situa\u00e7\u00e3o e pensar na vida dos seus filhos?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013 <\/strong>Acho que sim, mas existe outra quest\u00e3o. Quando terminei O crime do Cais do Valongo, comecei a perceber que estava nascendo ali um projeto liter\u00e1rio: investigar a vida negra no Brasil em diversos aspectos, tanto no tempo e no espa\u00e7o quanto nas situa\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas. Investigar a vida negra brasileira o m\u00e1ximo que eu pudesse por meio da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Com isso, o universo se ampliou. N\u00e3o h\u00e1 como falar da vida negra no Brasil sem que o racismo esteja presente de alguma maneira.<\/p>\n<p>Mas veja, \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 o pulo do gato e a quest\u00e3o. Acho que nos viciamos em uma palavra t\u00e3o feia, que \u00e9 essa coisa de identitarismo, e demos a ela uma conota\u00e7\u00e3o t\u00e3o pejorativa que n\u00e3o conseguimos enxergar uma hist\u00f3ria como \u00c1gua de Barrela, a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia, que tem todas as quest\u00f5es que qualquer fam\u00edlia tem. O que acontece com essas quest\u00f5es quando existe esse componente interferindo? Ou seja, os preconceitos, o racismo. O que acontece quando isso interfere na trajet\u00f3ria das pessoas? S\u00e3o trajet\u00f3rias como quaisquer outras.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Como voc\u00ea v\u00ea a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e da cr\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Meridiana, que \u00e9 um livro mais recente e pelo qual ganhei o pr\u00eamio, tamb\u00e9m \u00e9 uma hist\u00f3ria familiar de ascens\u00e3o. Acho que est\u00e1 fazendo muito sucesso porque pessoas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a hist\u00f3ria negra, pessoas brancas, olham e dizem que veem o pai, a m\u00e3e, porque s\u00e3o seres humanos que t\u00eam as mesmas falhas e quest\u00f5es.<\/p>\n<p>O que acontece quando uma pessoa negra ascende e precisa lutar? Al\u00e9m das quest\u00f5es humanas, comuns nos relacionamentos, existe esse componente da exclus\u00e3o e do racismo.<\/p>\n<p>Acho que resumir livros e obras como as minhas e as de outros autores e autoras \u00e0 quest\u00e3o racial \u00e9 apequenar o leitor, n\u00e3o o escritor, como se ele n\u00e3o tivesse capacidade de perceber para al\u00e9m disso e, mais ainda, de aprofundar seu olhar em raz\u00e3o disso, fazendo um confronto com a pr\u00f3pria realidade, seja ela qual for.<\/p>\n<p>\u00c9 um pouco isso. Se eu n\u00e3o utilizasse o componente do racismo, as pessoas diriam que o livro \u00e9 artificial. Como uma fam\u00edlia negra n\u00e3o passaria por racismo? Se voc\u00ea escreve, \u00e9 porque escreve; se n\u00e3o escreve, \u00e9 porque n\u00e3o escreve. Existe uma parcela da galera que quer reclamar, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 reclamar. \u00c9 inviabilizar que voc\u00ea escreva, fa\u00e7a sucesso e tenha sua obra lida. N\u00e3o admito isso. Acho que precisamos ter liberdade para escrever o que quisermos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Meridiana ganhou o Pr\u00eamio Jabuti na categoria Romance. Voc\u00ea est\u00e1 colecionando Jabutis, porque esse \u00e9 o segundo que conquista. O que essa premia\u00e7\u00e3o representa para voc\u00ea, que no in\u00edcio tinha d\u00favidas sobre seguir a carreira de escritora? Ela confirma sua trajet\u00f3ria e o reconhecimento conquistado com diferentes premia\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong>\u00a0\u00a0Isso \u00e9 muito legal. Os pr\u00eamios chancelam e d\u00e3o visibilidade ao seu trabalho. Isso \u00e9 importante tamb\u00e9m como meio de vida. Voc\u00ea fica mais vis\u00edvel e recebe mais convites para trabalhar. Isso \u00e9 importante.<\/p>\n<p>Acho que a sociedade brasileira naturalizou tanto a nossa aus\u00eancia que, toda vez que a gente ganha um pr\u00eamio, \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria. Enquanto isso, h\u00e1 autores e autoras com estantes de Jabutis. Todo ano voc\u00ea pode ver que a pessoa est\u00e1 l\u00e1 ganhando alguma coisa, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Acho que deveria causar mais estranheza o fato de eu ter sido a primeira mulher negra a ganhar. Veja: foram 68 anos para uma mulher negra ganhar o pr\u00eamio de melhor romance do Brasil. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! Carolina Maria de Jesus, gente, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, a pr\u00f3pria Ana Maria Gon\u00e7alves&#8230; Tantas escritoras e tantos romances poderiam ter subido \u00e0quele palco para ganhar esse pr\u00eamio.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 retrato de uma sociedade que n\u00e3o quer encarar a pr\u00f3pria exclus\u00e3o ou prefere taxar todo mundo de identitarista, em vez de reconhecer que realmente h\u00e1 algo que precisa ser transformado.<\/p>\n<p>Vejo um esfor\u00e7o do Pr\u00eamio Jabuti nesse sentido. Acho que meu pr\u00eamio e o de outras pessoas n\u00e3o s\u00e3o uma cota. S\u00e3o pr\u00eamios justos, que estavam ali concorrendo com outros livros t\u00e3o bons quanto. \u00c9 muito interessante ver a qualidade da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira de modo geral. Temos livros sensacionais, uma produ\u00e7\u00e3o muito f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Consigo pensar, de cabe\u00e7a, em cinco ou seis livros que poderiam estar ali, mas n\u00e3o entraram nem entre os dez e poderiam at\u00e9 ter ganhado. \u00c9 um pouco isso.<\/p>\n<p>Acho muito escandaloso que, em 2026, eu seja a primeira mulher negra a ganhar na categoria Romance e seja a mulher negra a ter dois Jabutis, \u201cdoizinhos\u201d s\u00f3. Mas \u00e9 muito legal, muito bacana. Vejo realmente um esfor\u00e7o de mudan\u00e7a e inclus\u00e3o. \u00c9 um caminho sem volta.<\/p>\n<p>Eu sou escritora. Se ningu\u00e9m quiser publicar meu livro, mesmo assim serei escritora.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> O programa Trilha de Letras, transmitido pela TV Brasil e cuja quarta temporada voc\u00ea apresentou, vai voltar?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013 <\/strong>Estou nessa torcida. Agora que houve a reelei\u00e7\u00e3o do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, espero que sim. Estou aqui dispon\u00edvel. Acho que \u00e9 uma quest\u00e3o de acertar os minist\u00e9rios e os cargos. \u00c9 um programa cuja volta as pessoas pedem muito. \u00c9 o \u00fanico programa de literatura na TV aberta, gente. Isso tamb\u00e9m \u00e9 muito escandaloso. \u00c9 um programa de que gosto muito de fazer. Espero que volte.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013<\/strong> Era um programa ao qual voc\u00ea se dedicava bastante.<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Gostava demais. A gente gravava geralmente \u00e0s quartas-feiras. Costum\u00e1vamos gravar dois programas por semana. Era algo que dava certo trabalho, mas n\u00e3o era pesado, exaustivo. A equipe \u00e9 maravilhosa. A Em\u00edlia Ferraz, a diretora, \u00e9 maravilhosa. N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que leia tanto quanto a Em\u00edlia. O livro saiu e ela j\u00e1 est\u00e1 lendo. Ela l\u00ea infinitamente mais do que eu e sabe do que est\u00e1 falando. Isso ajuda demais.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil \u2013 <\/strong>Que mensagem voc\u00ea daria aos jovens escritores negros que est\u00e3o come\u00e7ando na carreira ou que, como voc\u00ea no in\u00edcio, ainda t\u00eam d\u00favidas sobre seguir esse caminho?<\/p>\n<p><strong>Eliana Alves Cruz \u2013<\/strong> Eu diria para n\u00e3o desistirem. Para escreverem. A escrita precisa de um ativo chamado tempo, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para as pessoas negras no Brasil. Ainda estamos na base da sociedade em muita coisa. A gente trabalha muito, at\u00e9 demais, tem jornadas exaustivas. Mas escrevam em todo o tempo livre que tiverem.<\/p>\n<p>Aperfei\u00e7oem-se e leiam para poder refinar a escrita. Submetam os textos a outras pessoas para que opinem e voc\u00eas tamb\u00e9m possam enxergar pelo olhar dos outros. A cr\u00edtica \u00e9 importante. \u00c9 importante observar onde est\u00e3o os pontos mais fortes e os mais fracos. Estudem e escrevam. N\u00e3o desistam.<\/p>\n<p>O primeiro obst\u00e1culo que a gente enfrenta \u00e9 a gente mesmo. \u00c9 preciso quebrar as nossas resist\u00eancias, a vergonha do pr\u00f3prio texto. O que tem de gente que n\u00e3o l\u00ea o que escreveu porque tem vergonha \u00e9 inadmiss\u00edvel. Est\u00e1 com vergonha de qu\u00ea? Escreva. Pode ficar ruim no primeiro e no segundo texto; no terceiro, voc\u00ea j\u00e1 vai come\u00e7ar a gostar de algumas coisas.<\/p>\n<p>Busquem a pr\u00f3pria voz. \u00c9 muito bacana come\u00e7ar tendo algum autor ou autora como refer\u00eancia e at\u00e9 imitar, de certa forma, o estilo. Mas tentem encontrar sua pr\u00f3pria dic\u00e7\u00e3o, sua forma de contar. S\u00f3 voc\u00ea tem a sua forma de contar.<\/p>\n<p>      <!-- Relacionada --><br \/>\n            <!-- Relacionada -->\n    <\/div>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/cultura\/noticia\/2026-11\/eliana-alves-cruz-questiona-ausencia-de-autoras-negras-no-jabuti\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">agenciabrasil.ebc.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz queria ser escritora desde os 11 anos, mas levou tempo at\u00e9 acreditar que poderia transformar a voca\u00e7\u00e3o em profiss\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com a literatura foi alimentada dentro de casa, pelo pai e pelas av\u00f3s, que gostavam de contar hist\u00f3rias. Ao longo dos anos, Eliana encontrou no jornalismo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5333,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-5332","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude-e-bem-estar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5332"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5332\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estadaorondonia.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}